Por que você continua amando quem te faz sofrer?

A teoria do apego pode explicar os conflitos emocionais que estão adoecendo seus relacionamentos.

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Three buttons with people and a broken heart on them
Three buttons with people and a broken heart on them

A teoria do apego, desenvolvida inicialmente por John Bowlby, revolucionou a forma como compreendemos os vínculos humanos, especialmente os relacionamentos afetivos na vida adulta. Ao longo de mais de 20 anos de escuta clínica, percebi que muitos conflitos relacionais não surgem apenas das atitudes atuais do casal, mas da forma como cada pessoa aprendeu, ainda na infância, a perceber segurança, abandono, rejeição, afeto e validação emocional.

Pessoas que cresceram em ambientes emocionalmente instáveis, com figuras de apego inconsistentes, críticas, ausentes ou imprevisíveis, tendem a desenvolver padrões de apego inseguros. E isso se manifesta nos relacionamentos adultos de maneiras muitas vezes silenciosas: medo excessivo de abandono, dependência emocional, necessidade constante de aprovação, ciúmes intensos, hipervigilância, dificuldade de confiar, medo de intimidade ou até comportamentos de afastamento emocional.

Na prática clínica, observo com frequência pessoas que acreditam estar vivendo apenas um “problema de relacionamento”, quando, na verdade, estão revivendo padrões emocionais aprendidos muito antes daquele vínculo atual existir. O parceiro deixa de responder uma mensagem, por exemplo e aquilo ativa no cérebro memórias emocionais antigas relacionadas à rejeição, abandono ou desamparo. O corpo reage antes mesmo da razão compreender o que está acontecendo.

A neurociência explica que experiências afetivas repetidas moldam circuitos neurais relacionados à regulação emocional, percepção de ameaça e sensação de segurança. Isso significa que não amamos apenas com o coração, mas também com aquilo que o cérebro aprendeu sobre proteção emocional ao longo da vida.

Por isso, autoconhecimento não é apenas “pensar sobre si”. É aprender a reconhecer gatilhos emocionais, compreender padrões de repetição e desenvolver consciência suficiente para interromper ciclos que adoecem a saúde mental e os relacionamentos.

A teoria do apego nos ajuda a compreender que muitos conflitos conjugais não são somente falta de amor. Muitas vezes, são tentativas desorganizadas de buscar segurança emocional usando estratégias aprendidas em ambientes emocionalmente inseguros.

E é justamente nesse ponto que o desenvolvimento emocional se torna tão importante: quando a pessoa deixa de viver apenas reagindo às próprias dores e passa a compreender, com consciência, o que sente, por que sente e como pode construir relações mais saudáveis e seguras.

Referências bibliográficas

Bowlby J. Attachment and Loss: Attachment. New York: Basic Books; 1969.

Van der Kolk BA. The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. New York: Viking; 2014.